Nasci como nascem os cabeços
Parido de uma fraga com alma de pedra.
Vivo a vida errante como o vento
Solto no mundo sem raizes.
A cada dia uma vontade nova
Um novo destino um nova gana.ue
Mas um ser eterno
Autor: Albano Solheira
Sarrão de borrego a pender das costas,
Pastor de ovelhas e mil pensamentos.
Pastoreias rebanho desces as encostas
A Guardar do mundo os teus sentimentos.
As rugas do sol, vincam no teu rosto,
Sinais dos trabalhos passados na vida,
Fadiga aparente, corpo exausto na lida
Canseiras da vida que exige descanso
Olhos sentinelas sempre acostumados,
Lêem no poente o final da que espreita.
O dia que termina, atordoados sentidos,
Caminho rebanho, e a sorte tão estreita.
Um dia termia depois vem logo outro igual
Vida que vagueia num pasto sem fim.
Existência e rotina como o teu rebanho
Semelhante a do pastor que te deu a vida.
Dias virão e eu vou dizer
Não passei por aqui antes de hoje.
Neste sonho que permaneceu vivo
E que se apagou em cada instante.
O tempo fez partir as gentes que amei
Pensava que voltar as traria de volta,
Mas não mais as vi nem encontrei.
Resolvi também não retornar.
Apenas olho sem sair e voltar
O tempo distancia do quadro
Viajar do coração, paisagem.
Albano Solheira
Criança
Quisera saber o que sei para te contar
Quisera ter o que tenho para te dar
Quisera poder ser
Quisera poder estar
Para te abraçar
Hoje ao ouvir o toque da matraca,
Pensei em todos os meus pecados.
Padre, confesso, minha carne é fraca
Pintei e bordei por bons bocados.
Andei à tarde aos ninhos no canilhão
Joguei tiro-liro, bola, fito e ao pião
Aprontei ao botar algumas cacadas,
E sim, foram milhares de presepadas.
Foram altas artes, não nego, nem minto.
Na escola fui eu que espiei as raparigas
E que puxei o cabelo das mais crescidas
Sei, sou quase homem eu não desminto.
Fugi e esqueci minhas vacas no lameiro
Precisava ir com meus amigos a brincar
Sabe, não quero perder por ali o ano inteiro
Tenho que jogar a bola, ir, viver e aprontar.
Confesso tudo, mas daí-me logo a penitencia.
Já é tempo de correr e voltar pras brincadeiras!
Devo rezar um pai nosso, em cada dia? Paciência.
Tenho o Céu garantido quanto brinco nas eiras.
Albano Solheira