Campos de trigo
verdes de espigas,
Vermelhos de descobertas
Pão e sonhos,
Trabalhos e esperanças.
No mesmo campo,
O lavrador semeou os grãos,
Sustento do corpo.
E o Criador derramou as sementes,
Alento da alma.
Por: Albano Solheira
“Crônicas de tempos idos”
Capitulo I
A existência toma as cores do tempo. Cada estação da vida tem seu modo de ser e de estar nos dias. Há uma época em especial em que o corpo nega as forças ao pensamento e mesmo que a vontade teime em querer fazer algum movimento, ele tem que ser programado e posto em pratica, de forma conjugada, devagar. Negam-se os músculos, negam-se as pernas e até a mente começa a teimar por conta própria não querer ir a lugar algum.
Antonio vivia assim. Sem pressa nem desassossego, no ritmo de seu corpo cansado, atrofiado pelos trabalhos. Foram tantos invernos, que há muito perdera a conta dos anos. Mas que importância isso tem, se a vida é um dia de cada vez, não há porque contar ou marcar algo que não acrescenta só subtrai. Vivia, isso bastava…
Esquecera quem era ha muito. Foi um criado por escolha propria. Ao meio da vida, trocou o ser, por cama e comida na casa dos outros. Preço alto, muito caro e que só agora ao fim dos dias, reconhecia o erro de trocar trabalho por farelos e vianda. Entregou sem valor a juventude e a meia idade aos patrões. Agora sem a força dos braços para o serviço, era um peso, um invalido. Não valia a comida que comia. Esqueceram rapidamente dos anos de didicação, de nada valeram. Juntaram os trapos o colchao de palha onde dormia e puseram tudo a porta do curral. Depois o filho do patrão mandou outro criado para lhe dar a noticia que ele tinha que sair dali, o patrão não tinha mais serviço.
Com uns vinte e poucos saiu para correr mundo ao terminar o serviço militar. O exercito mostrou horizontes maiores que os da aldeia onde nasceu e de onde nunca tinha saido até ser recrutado. Jurou não voltar. Mas a vida tem seus proprios caminhos.
Quando deu a baixa, ficou na cidade grande, mas logo saiu para terras menores. Era estranha a lida nas fabricas. Nao se imaginava trancado o dia inteiro sem ver o céu. Não exitou, e saiu sem destino. Trocava o trabalho por alguns vintens para vinho e comida. E assim começou a andar, por onde lhe davam trabalho e função rodou terras e lugares. Foi pastor, guardou vacas, ajudou nas segadas, das colheitas, nas vindimas, na azeitona, mas nao se fixou a nenhum lugar, como se tivesse uma força que o fazia ir alem sem nunca se deter ou criar raizes.
Ninguém sabia de onde viera e nem mesmo ele lembrava ao certo porque ali chegara também. Um dia cansado de andar sem eira nem beira, pelos caminhos e terras, chegou à porta do um curral que fica a entrada do povoado e sem que ninguém nem nada lhe dissesse o motivo, parou. Olhou a cancela da entrada e resolveu ficar ali para oferecer o trabalho em troca de cama e comida.
Imóvel, na porta do curral, como um cão do gado encolhido ao sol a espera do pastor até a hora de soltar as ovelhas, ficou a espera que o dono aparecesse . Nem mesmo a barriga vazia e os pés doidos e congelados o fizeram sair do dali. Não tardou, e os criados chegaram. Olhos dormentes, encolhidos pelo frio da geada apressados para atender o mugido das vacas e o grunhido dos porcos que cientes do horário da lida resmungavam insatisfeitos pela ração de desjejum. Fizera um juramento de nao voltar, e agora sem saber o porquê nem o motivo, ali estava, no mesmo lugar de onde saira anos atras. Ao vê-lo o patrão sorriu, e sem muitas palavras deu ordens para aceita-lo ao serviço.
Os anos passaram, primeiro a forca da juventude seguida da experiência da meia idade e por fim, o outono da vida. Não esperava nada em troca alem de um teto mas ate isso lhe negaram nos derradeiros dias. Um vazio tomou conta do peito e da mente, quando finalmente a realidade decantava diante dos olhos turvos.
Com dificuldade saiu com a trouxa as costas. Mudou todos seus pertences para um palheiro perto do semitério que estava vazio sem gado nem palha. Em um dos cantos fez uma mureta com cantaria para servir de murilho pra lareira. Almas caridosas deram-lhe uma panela para cozer as batatas. E assim sem ter onde cair morto passou a viver os dias na solidão da caridade alheia.
No rigor do inverno uma geada mais forte congelou o telhado e a alma do Antonio, partiu enfim.
Albano Solheira
Autor: Albano Solheira
Sarrão de borrego a pender das costas,
Pastor de ovelhas e mil pensamentos.
Pastoreias rebanho desces as encostas
A Guardar do mundo os teus sentimentos.
As rugas do sol, vincam no teu rosto,
Sinais dos trabalhos passados na vida,
Fadiga aparente, corpo exausto na lida
Canseiras da vida que exige descanso
Olhos sentinelas sempre acostumados,
Lêem no poente o final da que espreita.
O dia que termina, atordoados sentidos,
Caminho rebanho, e a sorte tão estreita.
Um dia termia depois vem logo outro igual
Vida que vagueia num pasto sem fim.
Existência e rotina como o teu rebanho
Semelhante a do pastor que te deu a vida.
Dias virão e eu vou dizer
Não passei por aqui antes de hoje.
Neste sonho que permaneceu vivo
E que se apagou em cada instante.
O tempo fez partir as gentes que amei
Pensava que voltar as traria de volta,
Mas não mais as vi nem encontrei.
Resolvi também não retornar.
Apenas olho sem sair e voltar
O tempo distancia do quadro
Viajar do coração, paisagem.
Albano Solheira
Criança
Quisera saber o que sei para te contar
Quisera ter o que tenho para te dar
Quisera poder ser
Quisera poder estar
Para te abraçar
Hoje ao ouvir o toque da matraca,
Pensei em todos os meus pecados.
Padre, confesso, minha carne é fraca
Pintei e bordei por bons bocados.
Andei à tarde aos ninhos no canilhão
Joguei tiro-liro, bola, fito e ao pião
Aprontei ao botar algumas cacadas,
E sim, foram milhares de presepadas.
Foram altas artes, não nego, nem minto.
Na escola fui eu que espiei as raparigas
E que puxei o cabelo das mais crescidas
Sei, sou quase homem eu não desminto.
Fugi e esqueci minhas vacas no lameiro
Precisava ir com meus amigos a brincar
Sabe, não quero perder por ali o ano inteiro
Tenho que jogar a bola, ir, viver e aprontar.
Confesso tudo, mas daí-me logo a penitencia.
Já é tempo de correr e voltar pras brincadeiras!
Devo rezar um pai nosso, em cada dia? Paciência.
Tenho o Céu garantido quanto brinco nas eiras.
Albano Solheira