30/07/2012

Migalhas

Por: Albano Solheira

 

Migalhas

“Crônicas de tempos idos”

Capitulo I

A existência toma as cores do tempo. Cada estação da vida tem seu modo de ser e de estar nos dias. Há uma época em especial em que o corpo nega as forças ao pensamento e mesmo que a vontade teime em querer fazer algum movimento, ele tem que ser programado e posto em pratica, de forma conjugada, devagar. Negam-se os músculos, negam-se as pernas e até a mente começa a teimar por conta própria não querer ir a lugar algum.

Antonio vivia assim. Sem pressa nem desassossego, no ritmo de seu corpo cansado, atrofiado pelos trabalhos. Foram tantos invernos, que há muito perdera a conta dos anos. Mas que importância isso tem, se a vida é um dia de cada vez, não há porque contar ou marcar algo que não acrescenta só subtrai. Vivia, isso bastava…

Esquecera quem era ha muito. Foi um criado por escolha propria. Ao meio da vida, trocou o ser, por cama e comida na casa dos outros. Preço alto, muito caro e que só agora ao fim dos dias, reconhecia o erro de trocar trabalho por farelos e vianda. Entregou sem valor a juventude e a meia idade aos patrões. Agora sem a força dos braços para o serviço, era um peso, um invalido. Não valia a comida que comia. Esqueceram rapidamente dos anos de didicação, de nada valeram. Juntaram os trapos o colchao de palha onde dormia e puseram tudo a porta do curral. Depois o filho do patrão mandou outro criado para lhe dar a noticia que ele tinha que sair dali, o patrão não tinha mais serviço.

Com uns vinte e poucos saiu para correr mundo ao terminar o serviço militar. O exercito mostrou horizontes maiores que os da aldeia onde nasceu e de onde nunca tinha saido até ser recrutado. Jurou não voltar. Mas a vida tem seus proprios caminhos.

Quando deu a baixa, ficou na cidade grande, mas logo saiu para terras menores. Era estranha a lida nas fabricas. Nao se imaginava trancado o dia inteiro sem ver o céu. Não exitou, e saiu sem destino. Trocava o trabalho por alguns vintens para vinho e comida. E assim começou a andar, por onde lhe davam trabalho e função rodou terras e lugares. Foi pastor, guardou vacas, ajudou nas segadas, das colheitas, nas vindimas, na azeitona, mas nao se fixou a nenhum lugar, como se tivesse uma força que o fazia ir alem sem nunca se deter ou criar raizes.

Ninguém sabia de onde viera e nem mesmo ele lembrava ao certo porque ali chegara também. Um dia cansado de andar sem eira nem beira, pelos caminhos e terras, chegou à porta do um curral que fica a entrada do povoado e sem que ninguém nem nada lhe dissesse o motivo, parou. Olhou a cancela da entrada e resolveu ficar ali para oferecer o trabalho em troca de cama e comida.

Imóvel, na porta do curral, como um cão do gado encolhido ao sol a espera do pastor até a hora de soltar as ovelhas, ficou a espera que o dono aparecesse . Nem mesmo a barriga vazia e os pés doidos e congelados o fizeram sair do dali. Não tardou, e os criados chegaram. Olhos dormentes, encolhidos pelo frio da geada apressados para atender o mugido das vacas e o grunhido dos porcos que cientes do horário da lida resmungavam insatisfeitos pela ração de desjejum. Fizera um juramento de nao voltar, e agora sem saber o porquê nem o motivo, ali estava, no mesmo lugar de onde saira anos atras. Ao vê-lo o patrão sorriu, e sem muitas palavras deu ordens para aceita-lo ao serviço.

Os anos passaram, primeiro a forca da juventude seguida da experiência da meia idade e por fim, o outono da vida. Não esperava nada em troca alem de um teto mas ate isso lhe negaram nos derradeiros dias. Um vazio tomou conta do peito e da mente, quando finalmente a realidade decantava diante dos olhos turvos.

Com dificuldade saiu com a trouxa as costas. Mudou todos seus pertences para um palheiro perto do semitério que estava vazio sem gado nem palha. Em um dos cantos fez uma mureta com cantaria para servir de murilho pra lareira. Almas caridosas deram-lhe uma panela para cozer as batatas. E  assim sem ter onde cair morto passou a viver os dias na solidão da caridade alheia.

No rigor do inverno uma geada mais forte congelou o telhado e a alma do Antonio, partiu enfim.

Albano Solheira

17/02/2012

Volte Sempre...


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Volte sempre,


Curioso as placas dizerem isto.

Volte sempre…

Pra elas que ficam ali paradas, é fácil voltar, dali nunca saíram.

Eu acredito, que quem as faz não pensa nisso.

Menos ainda quem as manda fazer.

Volte sempre...

Paro pra pensar no que é voltar sempre,

E, no que as placas dizem a quem está só de passagem.

Voltar e sempre, são contraditórios.

Vivemos.



Albano Solheira

22/10/2011

Entre fragas

 

Nasci como nascem os cabeços

Parido de uma fraga com alma de pedra.

Vivo a vida errante como o vento

Solto no mundo sem raizes.

A cada dia uma vontade nova

Um novo destino um nova gana.ue

Mas um ser eterno

 

 

08/04/2011

Um sorriso…

Autor: Luís Pardal 
Um sorriso…
Uma surpresa…
Tem coisa mais simples que lembrar de um momento em nossas vidas em que fomos felizes de verdade? Ao lembrar desses momentos como que transportamos para os dias de hoje a mesma alegria e felicidade que sentimos antes. Tudo volta… e se torna presente e com a mesma intensidade!
Esta semana, bem no meio do meu dia, entre um compromisso e outro na correria do trabalho, eis que do nada, assim sem esperar, nem pedir licença, entra pelo carro, uma música que ouvi vezes sem conta anos atrás. Fez-me sorrir e cantar junto com vontade e alegria.
Começou a tocar um antigo sucesso dos A-ha, porem em uma versão diferente da original. Voltei no tempo para os meus 16 anos, e lembrei dos verões que passei em Castelo Branco. Lembrei dos amigos, do tempo que ficávamos de volta da Casa Grande nas noites de verão a tocar viola e a sonhar.
Os bons momentos e os bons amigos são para sempre! A vida levou, cada um de nós para longe e nos separou na distância dos anos e da geografia. Ao ouvir esta musica, lembrei dos rostos de cada um e fiquei feliz por termos vivido tantos bons momentos juntos. Tenho certeza que onde quer que cada um esteja, lembrará com alegria daqueles tempos.
Aos amigos, para lembrar!
A versão atual
A versão original dos anos 80

28/11/2010

Pastoreio

Autor: Albano Solheira

pastor

 

Sarrão de borrego a pender das costas,

Pastor de ovelhas e mil pensamentos.

Pastoreias rebanho desces as encostas

A Guardar do mundo os teus sentimentos.

 

As rugas do sol, vincam no teu rosto,

Sinais dos trabalhos passados na vida,

Fadiga aparente, corpo exausto na lida

Canseiras da vida que exige descanso

 

Olhos sentinelas sempre acostumados,

Lêem no poente o final da que espreita.

O dia que termina, atordoados sentidos,

Caminho rebanho, e a sorte tão estreita.

 

Um dia termia depois vem logo outro igual

Vida que vagueia num pasto sem fim.

Existência e rotina como o teu rebanho

Semelhante a do pastor que te deu a vida.

18/09/2010

15/09/2010

Paisagem

 

Dias virão e eu vou dizer

Não passei por aqui antes de hoje.

 

 

Neste sonho que permaneceu vivo

 

E que se apagou em cada instante.

 

O tempo fez partir as gentes que amei

 

 

Pensava que voltar as traria de volta,

 

Mas não mais as vi nem encontrei.

 

Resolvi também não retornar.

 

 

Apenas olho sem sair e voltar

 

O tempo distancia do quadro

 

Viajar do coração, paisagem.

Coisas de ti

Albano Solheira

 

Criança

Quisera saber o que sei para te contar

Quisera ter o que tenho para te dar

Quisera poder ser

Quisera poder estar

Para te abraçar

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01/06/2010

Espelho frontal

Autor: Albano Solheira
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Crise...
Estou em crise, disse para mim mesmo
E fiquei a olhar o espelho tentando me reconhecer no reflexo.
Quem eu sou não é quem me aparece,
Tenho menos anos, sou mais jovem…

Olhei de novo de vários ângulos,
Fiz caretas e trejeitos.
Parei, ri, até que me cansei.,
Quase acreditei, que o menino
Que pensava que vivia,
Por detrás, de meu rosto, me sorria.

Mas não estava lá, nem mais existia.
Esse que agora me olha, sou eu, apenas eu,
Ali, cara a cara, olho no olho,
Sozinho a encarar quem eu sou,
Neste espelho frontal e profundo.
Um espasmo e susto gelou a garganta.

Deixo sair da expressão, um sorriso trocista,
Com desdém, como quem quer ignorar.
E limpo o espelho para me ver melhor.
Realidade, sou eu sim, eu me conheço.
O menino cresceu, conclui então,
Hoje sou este homem , ali na minha frente.

Menino os anos Passaram, convivemos juntos,
Hoje finalmente, ao me olhar no espelho
Vejo a mim mesmo, com gosto e verdade.

Seguro, digo Satisfeito: o tempo voou,
Eu fui quem eu sou, e é bem melhor assim.

Albano Solheira

02/05/2010

Outono

Autor: Albano Solheira
 Imagem do blog de Guilherme Sanches . Clique no link para ver artigo original

Nas folhas, as marcas do tempo,
Nas mãos, as das lidas da vida.
As folhas e os dias castanhos
Juntos no meio do campo.

Debaixo do castanheiro
Ao rebusco das castanhas
É outono na estação
E quase inverno na vida.

Tons tristes dos dias curtos
Luz que finda, o fim do dia,
Mas até nos tons cinzentos
A vida se expande e recria

Castanhas assadas, saborosas,
Doces frutos, que alegria.
Lareira acesa, casa quentinha,
E a roda da família na cozinha.

As risadas da netinha
Chamando de minha avó
Coram o rosto feliz
Que retribui num sorriso.

Fitando nas chamas do lume
As castanhas a assar
Lembra da primavera
E o frio logo, logo, vai passar.

01/05/2010

Volte sempre…

Autor: Albano Solheiraimage Volte sempre,
Curioso as placas dizerem isto.
Volte sempre…
Pra elas que ficam ali paradas, é fácil voltar, dali nunca saíram.
Eu acredito, que quem as faz não pensa nisso.
Menos ainda quem as manda fazer.
Volte sempre...
Paro pra pensar no que é voltar sempre,
E, no que as placas dizem a quem está só de passagem.
Voltar e sempre, são contraditórios.
Vivemos.

Albano Solheira

31/03/2010

A confissão

 
Hoje ao ouvir o toque da matraca,
Pensei em todos os meus pecados.
Padre, confesso, minha carne é fraca
Pintei e bordei por bons bocados.

Andei à tarde aos ninhos no canilhão
Joguei tiro-liro, bola, fito e ao pião
Aprontei ao botar algumas cacadas,
E sim, foram milhares de presepadas.

Foram altas artes, não nego, nem minto.
Na escola fui eu que espiei as raparigas
E que puxei o cabelo das mais crescidas
Sei, sou quase homem eu não desminto.

Fugi e esqueci minhas vacas no lameiro
Precisava ir com meus amigos a brincar
Sabe, não quero perder por ali o ano inteiro
Tenho que jogar a bola, ir, viver e aprontar.

Confesso tudo, mas daí-me logo a penitencia.
Já é tempo de correr e voltar pras brincadeiras!
Devo rezar um pai nosso, em cada dia? Paciência.
Tenho o Céu garantido quanto brinco nas eiras.

Albano Solheira

21/03/2010

19/02/2010

Ribeira das pombinhas

Lameiros na ribeira das pombinhas.  Foto: Luis Pardal
Ao andar por estes lameiros,
Encontro sentado perto da ribeira,
Um menino que brinca de sonhar.

Tem os pés dentro da água,
As mãos enfiadas na areia
Rosto enlevado a olhar o céu.

Fala sozinho num diálogo solto,
De aventuras, perigos, conquistas,
Planos mil para quando crescer.

Não me olha, nem se apercebe
Que cheguei e, fico a olhar,
Parado para ouvir o que diz.

Gesticula e faz desenhos no ar,
De batalhas, campanhas, vitórias,
Viagens, mares, navios piratas.

A coragem e a simplicidade
Fazem-se sorrir e participar
E sentar pra brincar também.

Os anos passam a idade não.

Albano Solheira

Fotos de Castelo Branco com neve

Fotos:  Carla Nunes
Para os que gostam de se encantar com Castelo Branco, a Carla Nunes, mandou uma coleténea de fotos que faz os olhos ficarem arregalados com tanta beleza e encanto.
Obrigado Carla!
Solar dos Pimenteis na neve
Escola Primária de Castelo Branco coberta de neve
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DSC02435 Casa grande com neve
Foto do trinangulo na entrada de Castelo Branco coberto de neve
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Mais fotos no portal de Castelo Banco
Siga o link:

10/01/2010

Mare Nostrum

Este mar que me encara nos olhos
Faz-me querer sair por ele na descoberta.

O vento, sopra, sussurra, grita
Rompe os ouvidos com palavras incertas
Notícias de outros rumos, marés abertas.

Navegante de areias a andar na  praia.
Quero antever o mar rasgado na quilha,
Imaginar os sulcos de espuma traçados
Deixados pra trás no finito do barco
Do ponto de partida ao ponto de chegada.

Fico a remoer idéias e possibilidades.
E a vontade de navegar enche-me as velas.

Caminho na areia em passos largos, profundos,
Como quem quer marcar com os pés o trajeto.
Rota segura, eu penso e, afundo os passos.
Para deixar as marcas que servirão na volta
Nesta trilha de mares navegados,
Mare nostrum.
E as ondas que chegam
Apagam tudo depois que passo
E voltam ao mar vezes sem fim.

Viro finalmente no fim da praia.
Quero rever a obra terminada,
Com o olhar de quem já alcançou o objetivo.
Demoro para entender,
Não sobraram as rotas que tracei,
As águas que naveguei, os momentos que vivi.
O mar apagou tudo, e o mundo por onde andei, 
Surgiu novo, como se fosse um desconhecido.

Corro enlouquecido atrás das ondas, grito e reclamo,
Culpo o mar, o céu, a areia, o infinito,
Todos cúmplices desta eterna roda maluca.
Estou furioso, mas respiro,
Sentado na areia, fico a olhar ondas a chegar
E aos poucos caio em mim.

A vida e o mar sempre diferentes
Mas isto é o bom de viver,
Um momento novo a cada instante.
Olho a areia e volto a navegar na praia em passos largos…

É ilusão a vida no pensar.
Viver é mergulhar, sentir, arriscar
Cair nas ondas…

Experimentar…

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27/07/2009

Amendoeiras em Flor

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Petalas percursoras da primavera
Voando ao vento em zumbidos mil,
Perfume de mel, aromas do céu,
Alvura sem par.
Caminhos floridos Outeiros e montes.
Vida e seiva em ebulição.
Renasce a terra nas flores que chegam,
no fim do inverno.
A terra está prenha, fecunda,
De frutos, azeite, vinho novo e pão.
Petalas sagradas da mãe natureza
com tanta beleza enfeitam então
os sonhos a mente a vida e a casa
mesa farta e colheita no fim do verão.

Albano Solheira

08/07/2009

As mãos

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Nas mãos de um lavrador
As penas do trabalho
As dores do arado
As bênçãos, o pão.
Nas mãos de um lavrador
A esperança dos filhos
A fartura da mesa
A sina, inverno e verão.
Albano Solheira

30/06/2009

Romper as margens

Vou sair para dentro de mim a procurar.
Quero descobrir a forma de romper a vida,
De alargar as margens do comum e encontrar,
A força que tem o rio na distância do mar.
Quero viver como riacho que desce inquieto
E cresce no espaço com um rumo certo,
Na busca do ideal que o transforme
Em rio, em mar, em oceano.
Serei feliz, desperto pra vontade de errar.
De fazer o novo a cada instante, reinventar,
Envolver, crescer, expandir a vela, navegar
Sair , romper as margens.
Quero encontrar a simplicidade das cores
A indefinição de forma das gotas de orvalho
A plasticidade etérea das correntes de ar
Estar comigo mesmo frente a frente
Ver e olhar consciente.
Viver a vida intensamente.

Albano Solheira

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Povo Trasmontano

Povo de alma, teu nascimento,
Remonta ao nascer do tempo.
Na Tua origem se misturam povos
Iberos, Celtas, Romanos, Visigodos.

No Inverno e no Inferno foste curtido,
Caráter esculpido no rigor da natureza.
Seis meses de frio, quatro de calor e estio
Elementos presentes na tua nobreza.

O jeito rude esconde o espírito sensível
A alma nobre e sábia que irradia beleza.
Tua mão firme faz acontecer o impossível,
Brotar vida e esperança na infértil dureza.

Foste agricultor, construtor, comerciante
Trabalhaste, em outros países, imigrante
Pra dar aos teus rebentos algo importante
E fazê-los vencedores num futuro brilhante

Geraste e criaste filhos, tua descendência
Percorreu o mundo e desbravou nações
Orgulhosa de sua origem e precedência
Manteve viva, propagou as tuas tradições

Curvado pelo trabalho na intensa lida
Rigor da estação e situações adversas,
Vives um dia cada vez, vida sem pressas.
Certo de estar com a missão cumprida.

Raça trasmontana és cosmopolita
Pelo mundo afora teus filhos estão
Para que a todos seja sempre dita
A garra a fibra deste povo e nação.



Albano Solheira



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Foto: Abilio Freitas

29/06/2009

Castelo Branco

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Foto Abilio Freitas



Povo de meu pai e minha mãe
Onde cresci ate meus nove anos
Povo de meus sonhos e raízes.
Berço, de minha infância.
Onde volto tantas vezes que chego a pensar
Que daqui não saí.

Devoção,
Livro que escrevi e releio
Vezes sem fim.

Paginas de criança
Que brinca a descobrir o mundo.
Personagens vivos de minha historia
Relidos com outros olhos
Mas com a mesma emoção.

Ainda corro pelas ruas
Como corria quando menino.













26/06/2009

Lavrador de versos

Vivo como um lavrador de versos,
A arar, o papel, com mil palavras.
A cada dia vinco mais dispersos,
Sulcos, das minhas idéias e lavras.

Soltam-se da minha folha mensagens,
Sonhos longos, eternos, profundos
Palavras novas, vontades, miragens,
Rodas vivas, visões de novos mundos.

Com a profundidade de estar perdido
Entre a vontade de conhecer saborear,
Tudo o que tiver maior valor sentido
O amor, viver, ou um simples pensar.

Procuro, o renascer, o constante chegar
Nesta lavoura, da vida, eterno advir.
Busco uma forma de sempre germinar
E com novo jeito ser, viver e sentir.

Albano Solheira
castelo branco Carlos Costa
Foto: Carlos Costa

Sulcos

Olho o campo lavrado
Perco o olhar a seguir os sulcos.

Imagino o lavrador
Indo e voltando, vezes sem fim.
Vida simples, arar a terra...
Feliz quem sabe viver assim:
Atento aos sinais dos tempos
Lendo as estações e os ciclos,
Cumprindo a roda da vida.
Lavrar, plantar, colher.

Ingênuo, fico a imaginar
Que tua vida é um mar de paz
Como se a vida simples de alguém
Fosse desprovida de complexidade.

Volto a olhar os sulcos
Imagino teus olhos na charrua
Pondo a esperança na terra
Indo e voltando de novo
Nesse trabalho infinito.

Lembro que a terra e o tempo
Não tem ciclos perfeitos
As estações e os dias
São incertos, como a vida.

Caio em mim, ao te dar uma alma
Imagino que em ti as incertezas da vida
São as mesmas que eu tenho.

Vejo os sulcos semeados,
Entendo então,
Que tua angustia e apreensão
São fruto do provir, do que pode acontecer, ou não.

Este campo verdejante ainda arado
Deixa meu ser ali espantado
Por ter visto da simplicidade
Caminho simples ingênua felicidade.

Mania de ver as aparências
De não querer olhar mais longe
Em profundidade.

Albano Solheira
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Foto: Artur Claro

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